Em revisão médica Não neoplásica

Doença celíaca

Também chamada de enteropatia sensível ao glúten; espru celíaco · em inglês: celiac disease; coeliac disease

Gastrointestinal · Duodeno, Jejuno

Sequência molecular e celular, exames complementares e diferenciais.

Objetivos de aprendizagem

  • Reconhecer a tríade microscópica e avaliar orientação e distribuição antes de graduar a lesão.
  • Relacionar resposta ao glúten, sorologia e biópsia sem transformar um achado isolado em diagnóstico.
  • Separar doença celíaca de outras enteropatias com atrofia vilositária.

Definição

Enteropatia imunomediada desencadeada pelo glúten em pessoas geneticamente predispostas, caracterizada por linfócitos intraepiteliais aumentados, hiperplasia de criptas e graus variáveis de atrofia vilositária.

Antes de olhar a lâmina: a histologia normal

Uma alteração só é alteração em relação a alguma coisa. Estabeleça a referência primeiro.

Etiologia e fatores de risco

  • Peptídeos de gliadina do trigo e proteínas relacionadas de cevada e centeio

    imunologica

    A transglutaminase tecidual deamida peptídeos, aumentando sua apresentação por HLA-DQ2 ou DQ8 e ativando resposta T na mucosa.

  • Predisposição HLA-DQ2 ou HLA-DQ8

    genetica

    É necessária para a grande maioria dos casos, mas é comum na população; sua presença não confirma doença, enquanto sua ausência a torna improvável.

Fatores de risco

  • Parente de primeiro grau, diabetes tipo 1 ou doença autoimune da tireoideestabelecidoCompartilhamento de predisposição imunogenética eleva a probabilidade pré-teste.

Do gatilho à manifestação clínica

Cada seta responde a uma pergunta: por que o próximo evento acontece?

Mecanismo patológico geral

O conceito reutilizável primeiro, a aplicação a esta doença depois. Separar os dois é o que permite reconhecer o mesmo mecanismo em outro órgão.

  • Inflamação crônica

    Quando o agente não é eliminado, o infiltrado muda de composição: linfócitos, plasmócitos e macrófagos substituem os neutrófilos, e destruição e reparo passam a acontecer ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Essa simultaneidade é o que produz fibrose e deformidade — o dano crônico é obra tanto do agente quanto da resposta.

    Nesta doença: Linfócitos T ativados e citocinas sustentam dano epitelial, enquanto linfócitos intraepiteliais citotóxicos eliminam enterócitos estressados.

  • Adaptação celular

    Diante de uma demanda persistente que ainda não excede a capacidade da célula, o tecido muda de tamanho, de número ou de fenótipo para operar num novo estado estável. A adaptação é reversível por definição: retirado o estímulo, o tecido tende a voltar. Seu preço é trocar uma função especializada por resistência — e é justamente essa troca que cria terreno para lesões posteriores.

    Nesta doença: A cripta prolifera para repor epitélio perdido; quando o dano supera a regeneração, a superfície vilositária encurta e a absorção cai.

Cadeia causal específica

  1. Gatilho / etiologia

    Glúten chega à mucosa em hospedeiro suscetível

    Peptídeos resistentes à digestão atravessam a barreira e são modificados pela transglutaminase tecidual.

  2. Resposta celular

    Ativação de linfócitos T e citotoxicidade intraepitelial

    A apresentação por HLA-DQ2/DQ8 promove citocinas e morte de enterócitos.

    Na lâmina: Mais de 25 linfócitos intraepiteliais por 100 enterócitos, com contexto compatível.

  3. Resposta tecidual

    Hiperplasia regenerativa de criptas

    O compartimento proliferativo aumenta para compensar a perda acelerada da superfície.

    Na lâmina: Criptas alongadas, ramificadas e com mitoses.

  4. Achado morfológico

    Encurtamento e achatamento das vilosidades

    A lesão contínua excede a reposição epitelial e reduz a área absortiva.

    Na lâmina: Atrofia vilositária parcial ou total, geralmente mais acentuada proximalmente.

  5. Manifestação clínica

    Má absorção e manifestações sistêmicas

    A menor superfície e inflamação alteram absorção de ferro, folato, cálcio e outros nutrientes.

  6. Complicação

    Deficiências persistentes e transformação linfoide rara

    Exposição prolongada mantém má absorção e estimulação de linfócitos T, elevando o risco de osteopenia e, raramente, linfoma associado à enteropatia.

Macroscopia

  • Pregas duodenais reduzidas ou mucosa em mosaico; exame pode ser normal

    Sugestivo
    Por que aparece:
    Atrofia e remodelamento da mucosa.
    O que significa:
    Macroscopia normal não exclui doença; múltiplas biópsias bem orientadas continuam necessárias.

No microscópio, na ordem certa

Panorâmica → arquitetura → compartimento → padrão celular → citologia → síntese.

Procure primeiro: Confirme orientação, compare altura vilositária com profundidade das criptas e procure distribuição em mosaico.

  • Relação vilosidade:cripta reduzida

    Sugestivo
    Por que aparece:
    Perda de superfície associada a hiperplasia regenerativa.
    O que significa:
    Sustenta enteropatia, mas não é específica para doença celíaca.

Síntese diagnóstica

O padrão é linfocitose intraepitelial + hiperplasia de criptas + atrofia vilositária. Diagnóstico exige integração com dieta contendo glúten, sorologia e amostragem adequada.

Lâminas de referência

Catalogadas nos atlas de origem. Seleção editorial primeiro; o inventário completo de cada entrada fica a um clique.

Demais referências catalogadas (1)

Colorações, imuno-histoquímica e molecular

Cada exame responde a uma pergunta. Resultado isolado não é diagnóstico.

  • CD3

    Responde:
    Há aumento verdadeiro de linfócitos T intraepiteliais?
    Padrão esperado:
    Realce membranar dos linfócitos intraepiteliais, facilitando a contagem.
    Limitações:
    • Não diferencia doença celíaca de outras causas de linfocitose intraepitelial.
    Muda o diferencial:
    Confirma a natureza das células em casos limítrofes, mas não substitui sorologia e contexto.

Da morfologia ao sintoma

Correlação entre achado morfológico, consequência funcional e manifestação clínica
Achado morfológicoConsequência funcionalManifestação
Atrofia vilositária proximalRedução de absorção de ferro e folato.Anemia, fadiga e, em casos extensos, diarreia e perda ponderal.

Normal × patológico, lado a lado

Comparação entre o tecido normal e o tecido alterado, aspecto por aspecto
AspectoNormalPatológico
ArquiteturaVilosidades altas com criptas curtas.Vilosidades encurtadas ou ausentes e criptas hiperplásicas.
Compartimento intraepitelialPoucos linfócitos dispersos.Linfócitos aumentados e distribuídos até as pontas.

Diagnósticos diferenciais

  • Enteropatia medicamentosa, inclusive por olmesartana

    Por que confunde:
    Pode produzir atrofia vilositária e inflamação crônica.
    Compartilham:
    atrofia vilositária; inflamação da lâmina própria
    Discriminador:
    História medicamentosa, sorologia celíaca negativa e melhora após retirada do agente.
  • Giardíase

    Por que confunde:
    Causa má absorção, inflamação e encurtamento de vilosidades.
    Compartilham:
    atrofia vilositária; inflamação crônica
    Discriminador:
    Trofozoítos aderidos à superfície ou identificação por teste fecal.

Complicações e prognóstico

  • Linfoma T associado à enteropatiaEstimulação e expansão T crônicas favorecem seleção clonal em pequena parcela dos pacientes.
  • Osteopenia e deficiências nutricionaisMá absorção prolongada de cálcio, vitamina D, ferro e vitaminas.

Armadilhas

  • Diagnosticar pela contagem de linfócitos isolada.
  • Graduar vilosidades tangencialmente cortadas como atróficas.

Resumo de alta retenção

  • A tríade clássica é linfocitose intraepitelial, hiperplasia de criptas e atrofia vilositária.
  • HLA-DQ2/DQ8 negativo ajuda a excluir; positivo não confirma.
  • Biópsia deve ser interpretada com o paciente consumindo glúten e em conjunto com sorologia.

Autoavaliação

Responda antes de conferir. A devolutiva explica também por que as erradas estão erradas.

  1. 1.Qual combinação microscópica melhor sustenta doença celíaca no contexto clínico e sorológico adequado?

Referências, créditos e proveniência

Referências bibliográficas

  1. Rubio-Tapia A et al. American College of Gastroenterology Guidelines Update: Diagnosis and Management of Celiac Disease. Am J Gastroenterol. 2023. acessar
  2. Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Pathologic Basis of Disease. 10ª ed. Elsevier; 2021.

Entradas catalogadas consolidadas nesta doença

O nome exato encontrado na fonte é preservado. A consolidação é trabalho editorial do Domine Aqui e não é atribuída às instituições de origem.

Crédito das fontes

  • Histopathology Atlas / patolojiAI Histopathology Atlas / patolojiAI — Serdar Balcı, Memorial Pathology e instituições colaboradoras, conforme a página original. https://www.histopathologyatlas.com/
Registro completo de direitos e alterações editoriais