Em revisão médica Não neoplásica

Trombose venosa

Também chamada de trombose; tromboflebite; trombose venosa profunda · em inglês: venous thrombosis; deep vein thrombosis

Cardiovascular · Veia, Seio venoso dural, Microcirculação

Sequência molecular e celular, exames complementares e diferenciais.

Objetivos de aprendizagem

  • Aplicar a tríade de Virchow para explicar por que um trombo se formou naquele vaso.
  • Distinguir, na lâmina, trombo intravital de coágulo post mortem.
  • Datar aproximadamente um trombo pela presença de organização e recanalização.
  • Ligar a morfologia do trombo aos desfechos possíveis: lise, propagação, embolia e organização.

Definição

Formação de massa sólida a partir dos componentes do sangue dentro de um vaso íntegro, em vida, aderida à parede vascular e resultante da combinação de lesão endotelial, alteração do fluxo e hipercoagulabilidade.

Antes de olhar a lâmina: a histologia normal

Uma alteração só é alteração em relação a alguma coisa. Estabeleça a referência primeiro.

  • Veias normais

    Parede fina em relação ao lume, camadas mal delimitadas, média pobre em músculo liso, adventícia proeminente e luz ampla, habitualmente colapsada ou contendo apenas hemácias soltas. Endotélio contínuo e liso — nada aderido a ele.

  • Artérias normais, para contraste

    Lâmina elástica interna nítida, média espessa e organizada. Guardar essa diferença é o que permite dizer, diante de um trombo, se o vaso comprometido era artéria ou veia — informação que muda inteiramente a interpretação clínica.

Etiologia e fatores de risco

  • Estase venosa

    fisica

    Fluxo lento impede a diluição dos fatores de coagulação ativados e o aporte de inibidores; permite ainda o contato prolongado de plaquetas e leucócitos com o endotélio. É o componente dominante na trombose venosa.

  • Lesão endotelial

    fisica

    Trauma, cateter, inflamação ou hipóxia convertem o endotélio de superfície antitrombótica em superfície pró-trombótica, com exposição de fator tecidual e perda de trombomodulina e prostaciclina.

  • Estados de hipercoagulabilidade

    genetica

    Herdados (fator V de Leiden, mutação da protrombina, deficiências de proteína C, S e antitrombina) ou adquiridos (neoplasia, síndrome antifosfolípide, gestação, contraceptivos), deslocam o equilíbrio hemostático para a formação de fibrina.

Fatores de risco

  • Imobilização prolongada e pós-operatórioestabelecidoA bomba muscular da panturrilha é o principal motor do retorno venoso dos membros inferiores; sem contração, a estase se instala nos seios valvares.
  • Neoplasia malignaestabelecidoTumores liberam fator tecidual e micropartículas pró-coagulantes na circulação, além de comprimirem vasos mecanicamente.
  • Gestação e puerpérioestabelecidoElevação fisiológica de fibrinogênio e de fatores de coagulação, com compressão das veias ilíacas pelo útero gravídico.

Do gatilho à manifestação clínica

Cada seta responde a uma pergunta: por que o próximo evento acontece?

Mecanismo patológico geral

O conceito reutilizável primeiro, a aplicação a esta doença depois. Separar os dois é o que permite reconhecer o mesmo mecanismo em outro órgão.

  • Trombose

    Formação de um coágulo dentro de um vaso íntegro, em vida. Depende de três condições que se somam: lesão endotelial, alteração do fluxo (estase ou turbulência) e hipercoagulabilidade. O trombo é um evento com história: ele cresce, se organiza, recanaliza ou se desprende — e a morfologia registra em que ponto dessa história o material foi retirado.

    Nesta doença: No território venoso, a tríade de Virchow pende para a estase. O trombo tipicamente nasce nos seios valvares da panturrilha, onde o fluxo é naturalmente turbilhonar e lento; por isso é rico em hemácias e fibrina e pobre em plaquetas — o "trombo vermelho", diferente do trombo arterial, plaquetário e de crescimento contra o fluxo.

  • Reparo e fibrose

    Quando o parênquima perdido não pode ser reposto — porque as células não se dividem, porque a matriz de suporte foi destruída, ou porque a agressão persiste — o tecido é substituído por colágeno. O reparo restaura a continuidade, não a função. Fibrose é reparo que não sabe parar, e o custo é rigidez, retração e distorção arquitetural permanente.

    Nesta doença: Se não sofre lise nem emboliza, o trombo é invadido a partir da parede por células endoteliais, células musculares lisas e fibroblastos. Em dias a semanas ele se converte em tecido conjuntivo aderido à íntima, e novos canais endotelizados o atravessam — a recanalização, que restitui fluxo parcial e sequela valvar permanente.

  • Isquemia e infarto

    Redução do aporte de oxigênio e de substratos abaixo do necessário para manter a produção de ATP. A célula perde as bombas iônicas antes de perder a integridade da membrana, e é por isso que a lesão isquêmica tem uma janela reversível. Ultrapassada a janela, instala-se necrose; a área resultante é delimitada pelo território de irrigação, não pelos limites anatômicos do órgão.

    Nesta doença: A oclusão venosa não interrompe o aporte arterial: o sangue continua entrando e não sai. O resultado é congestão intensa, hemorragia intersticial e, quando a pressão iguala a arterial, infarto hemorrágico — mecanismo distinto do infarto branco por oclusão arterial.

Cadeia causal específica

  1. Gatilho / etiologia

    Estase no seio valvar, com ou sem lesão endotelial associada

    A geometria do seio valvar cria um redemoinho de baixa velocidade. Imobilidade elimina a bomba muscular que normalmente lava esse recesso, e o sangue permanece parado ali por tempo suficiente para que a coagulação escape do controle local.

  2. Alvo molecular ou celular

    Superfície endotelial e o equilíbrio hemostático local

    O endotélio quiescente é ativamente antitrombótico: expressa trombomodulina, heparan sulfato e produz prostaciclina e óxido nítrico. Hipóxia e citocinas do sangue estagnado suprimem esses fatores e induzem fator tecidual e inibidor do ativador de plasminogênio.

  3. Resposta celular

    Adesão plaquetária e ativação da cascata da coagulação

    Com a superfície convertida, plaquetas aderem e a trombina gerada localmente converte fibrinogênio em fibrina. Neutrófilos aderentes liberam redes de cromatina extracelular que servem de arcabouço adicional para a malha de fibrina.

    Na lâmina: Malha de fibrina com plaquetas aderidas ao endotélio

  4. Resposta tecidual

    Crescimento laminar do trombo na direção do fluxo

    Cada nova camada de plaquetas e fibrina aprisiona hemácias e se deposita sobre a anterior. A alternância entre camadas claras (plaquetas e fibrina) e escuras (hemácias) é o que produz as linhas de Zahn — prova de que houve fluxo durante a formação, ou seja, de que o trombo é intravital.

    Na lâmina: Linhas de Zahn e aderência firme à parede

  5. Achado morfológico

    Organização e recanalização

    A partir da parede, brotos capilares e miofibroblastos invadem a massa. Ela é progressivamente substituída por tecido conjuntivo, e canais revestidos por endotélio a atravessam. O vaso deixa de estar ocluído, mas nunca volta a ser o que era.

    Na lâmina: Tecido de granulação dentro do trombo, com neovasos endotelizados

  6. Perda ou alteração de função

    Hipertensão venosa distal e incompetência valvar

    A organização destrói as válvulas envolvidas. Sem elas, a coluna de sangue não é segmentada, e a pressão hidrostática se transmite integralmente à microcirculação distal.

  7. Manifestação clínica

    Edema, dor e empastamento do membro

    A pressão venosa elevada aumenta a filtração capilar além da capacidade de drenagem linfática. A distensão da parede venosa inflamada é o que produz a dor à palpação.

  8. Complicação

    Embolia pulmonar e síndrome pós-trombótica

    Um fragmento que se desprende segue o retorno venoso até a artéria pulmonar; o calibre em que impacta define desde silêncio clínico até morte súbita. Nos que não embolizam, a incompetência valvar residual produz hipertensão venosa crônica, hiperpigmentação e úlcera de estase.

Macroscopia

  • Massa intraluminal firme, seca e aderida à parede

    Necessário
    Por que aparece:
    Deposição laminar de fibrina e plaquetas sobre endotélio ativado.
    O que significa:
    Aderência é o traço macroscópico que separa trombo de coágulo post mortem, que se destaca com facilidade.
  • Coágulo post mortem com camada superior amarelada e inferior vermelho-escura

    Suficiente
    Por que aparece:
    Sedimentação de hemácias após a parada circulatória, sem fluxo e sem adesão.
    O que significa:
    Aspecto de "gordura de galinha" sobre "geleia de groselha"; elástico, não aderente — artefato, não doença.

No microscópio, na ordem certa

Panorâmica → arquitetura → compartimento → padrão celular → citologia → síntese.

Procure primeiro: Identifique primeiro o vaso: artéria ou veia? Depois, se o material intraluminal toca a parede em algum ponto ou está livre no lume.

  • Lume ocupado por massa em contato com a íntima

    Necessário
    Por que aparece:
    Adesão do trombo à superfície endotelial lesada.
    O que significa:
    Sem ponto de adesão em nenhum corte, a hipótese de artefato de coleta ou coágulo post mortem precisa ser considerada.
  • Parede vascular de camadas mal definidas e média delgada

    Frequente
    Por que aparece:
    Anatomia venosa normal: parede fina, média pobre em músculo liso e lume amplo.
    O que significa:
    Estabelece o território — trombose venosa e arterial têm patogenias e consequências distintas.

Síntese diagnóstica

Uma massa aderida à parede, com linhas de Zahn, estabelece trombo intravital e dispensa a discussão sobre artefato post mortem. A presença ou ausência de organização e de recanalização faz a datação relativa: recente (fibrina e hemácias, sem tecido invadindo), em organização (granulação penetrando), antigo (conjuntivo denso com canais endotelizados). O que a lâmina não responde é *por que* houve trombose — a tríade de Virculow se completa com dados clínicos e laboratoriais, nunca só com morfologia.

Lâminas de referência

Catalogadas nos atlas de origem. Seleção editorial primeiro; o inventário completo de cada entrada fica a um clique.

Demais referências catalogadas (120)

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  • Macroscopia Direitos aprovados

    Trombose em pequenos vasos

    Espécime. Massa irregular de tecido de cor esbranquiçada, consistência macia e friável, com fragmentos menores semelhantes que foram agrupados para a foto com a massa maior. Ao corte, aspecto notavelmente homogêneo, lembrando tecido nervoso imaturoDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

  • Macroscopia Direitos aprovados

    Trombose em pequenos vasos

    Espécime. Massa irregular de tecido de cor esbranquiçada, consistência macia e friável, com fragmentos menores semelhantes que foram agrupados para a foto com a massa maior. Ao corte, aspecto notavelmente homogêneo, lembrando tecido nervoso imaturoDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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    Trombose em pequenos vasos

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    Trombose em pequenos vasos

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  • Imuno-histoquímicaGFAP Direitos aprovados

    Trombose em pequenos vasos

    GFAP. Positivo em várias células em mitoseDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

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    Trombose em pequenos vasos

    GFAP. Positivo em várias células em mitoseDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Imuno-histoquímicaGFAP Direitos aprovados

    Trombose em pequenos vasos

    Mitoses. Numerosas, na maioria típicas, algumas atípicas. Ver outras na imunohistoquímica para GFAPDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Imuno-histoquímicaGFAP Direitos aprovados

    Trombose em pequenos vasos

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  • Imuno-histoquímicaHE Direitos aprovados

    Trombose em pequenos vasos

    Vasos. Diferente do habitual em gliomas de alto grau, não se observava proliferação endotelial intensa, com formação de pseudoglomérulos . Os núcleos de células endoteliais são por vezes tumefeitos, mas em HE não se observa empilhamento das mesmas, com obliteração da luz capilar. Os vasos são melhor estudados na imuno…Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Imuno-histoquímicaHE Direitos aprovados

    Trombose em pequenos vasos

    Vasos. Diferente do habitual em gliomas de alto grau, não se observava proliferação endotelial intensa, com formação de pseudoglomérulos . Os núcleos de células endoteliais são por vezes tumefeitos, mas em HE não se observa empilhamento das mesmas, com obliteração da luz capilar. Os vasos são melhor estudados na imuno…Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Imagem anatomopatológica Direitos aprovados

    Trombose em pequenos vasos

    Células neoplásicas. Os núcleos relativamente monomórficos são circundados por citoplasma róseo de limites imprecisos. Este é, por vezes, abundante, dando às células aspecto de astrócitos gemistocíticos. Em áreas, o caráter astrocitário com prolongamentos citoplasmáticos fica nítido. Atipias nucleares ou multinucleaçã…Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Imagem anatomopatológica Direitos aprovados

    Trombose em pequenos vasos

    Uma feição que distingüe o presente tumor dos gliomas de alto grau habituais no adulto é a delimitação precisa da neoplasia em relação ao tecido nervoso. Não se observa o caráter infiltrativo clássico , com aumento gradual da celularidade ao progredir-se do tecido vizinho ao interior do tumor. A delimitação precisa na…Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Imagem anatomopatológica Direitos aprovados

    Trombose em pequenos vasos

    Uma feição que distingüe o presente tumor dos gliomas de alto grau habituais no adulto é a delimitação precisa da neoplasia em relação ao tecido nervoso. Não se observa o caráter infiltrativo clássico , com aumento gradual da celularidade ao progredir-se do tecido vizinho ao interior do tumor. A delimitação precisa na…Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Imagem anatomopatológica Direitos aprovados

    Trombose em pequenos vasos

    Necroses em pseudopaliçada. Apesar da uniformidade celular e vasos delicados, havia áreas pequenas de necrose com contornos geográficos e adensamento das células na periferia lembrando paliçadas, idênticas às necroses em pseudopaliçada, clássicas do glioblastoma multiforme . No interior observavam-se células necrótica…Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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    Trombose em pequenos vasos

    Necroses em pseudopaliçada. Apesar da uniformidade celular e vasos delicados, havia áreas pequenas de necrose com contornos geográficos e adensamento das células na periferia lembrando paliçadas, idênticas às necroses em pseudopaliçada, clássicas do glioblastoma multiforme . No interior observavam-se células necrótica…Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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    Trombose em pequenos vasos

    Necroses em pseudopaliçada. Apesar da uniformidade celular e vasos delicados, havia áreas pequenas de necrose com contornos geográficos e adensamento das células na periferia lembrando paliçadas, idênticas às necroses em pseudopaliçada, clássicas do glioblastoma multiforme . No interior observavam-se células necrótica…Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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    Trombose em pequenos vasos

    Necroses em pseudopaliçada. Apesar da uniformidade celular e vasos delicados, havia áreas pequenas de necrose com contornos geográficos e adensamento das células na periferia lembrando paliçadas, idênticas às necroses em pseudopaliçada, clássicas do glioblastoma multiforme . No interior observavam-se células necrótica…Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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    Trombose em pequenos vasos

    Uma feição que distingüe o presente tumor dos gliomas de alto grau habituais no adulto é a delimitação precisa da neoplasia em relação ao tecido nervoso. Não se observa o caráter infiltrativo clássico , com aumento gradual da celularidade ao progredir-se do tecido vizinho ao interior do tumor. A delimitação precisa na…Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Imagem anatomopatológica Direitos aprovados

    Trombose em pequenos vasos

    Uma feição que distingüe o presente tumor dos gliomas de alto grau habituais no adulto é a delimitação precisa da neoplasia em relação ao tecido nervoso. Não se observa o caráter infiltrativo clássico , com aumento gradual da celularidade ao progredir-se do tecido vizinho ao interior do tumor. A delimitação precisa na…Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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Colorações, imuno-histoquímica e molecular

Cada exame responde a uma pergunta. Resultado isolado não é diagnóstico.

  • Tricrômico de Masson

    Responde:
    Quanta fibrose já substituiu a fibrina? Ou seja: qual a idade aproximada do trombo?
    Padrão esperado:
    Fibrina em vermelho-alaranjado; colágeno maduro em azul (ou verde, conforme o protocolo). A proporção entre os dois é o cronômetro.
    Controles:
    Controle de tecido com colágeno maduro conhecido em cada bateria.
    Limitações:
    • A conversão fibrina→colágeno é gradual e influenciada por idade e comorbidades: a datação é aproximada, nunca precisa.
    • Não distingue trombo organizado de fibrose intimal preexistente sem correlação arquitetural.
    Muda o diferencial:
    Permite separar trombo recente de trombo antigo recanalizado — distinção com implicação direta em contexto médico-legal e na decisão de anticoagular.
  • CD31 ou CD34

    Responde:
    Os canais que atravessam a massa organizada são realmente revestidos por endotélio?
    Padrão esperado:
    Marcação membranar em células que revestem os neocanais.
    Controles:
    Vasos preexistentes da parede servem como controle interno positivo.
    Limitações:
    • Não distingue neovaso de vaso preexistente englobado pelo trombo.
    • CD34 também marca células progenitoras e alguns tumores fusocelulares.
    Muda o diferencial:
    Confirma recanalização verdadeira, separando-a de fendas de retração produzidas no processamento.

Da morfologia ao sintoma

Correlação entre achado morfológico, consequência funcional e manifestação clínica
Achado morfológicoConsequência funcionalManifestação
Trombo oclusivo em veia profunda de membro inferiorBloqueio do retorno venoso com elevação da pressão hidrostática distal.Edema unilateral, dor à palpação e empastamento da panturrilha.
Trombo friável, pouco aderido, em segmento proximalAlto risco de desprendimento e migração pelo retorno venoso.Embolia pulmonar: dispneia súbita, dor pleurítica ou colapso hemodinâmico.
Trombo organizado e recanalizado com destruição valvarRefluxo venoso e hipertensão venosa crônica.Síndrome pós-trombótica: edema crônico, dermatite ocre e úlcera de estase maleolar.

Normal × patológico, lado a lado

Comparação entre o tecido normal e o tecido alterado, aspecto por aspecto
AspectoNormalPatológico
Conteúdo luminalHemácias soltas, sem estrutura, frequentemente removidas no processamento.Massa estruturada, laminada e aderida à íntima.
EndotélioContínuo, achatado, antitrombótico.Descontínuo ou ativado, com plaquetas e fibrina aderidas.
Válvula venosaFolhetos delgados e móveis, com seio valvar livre.Espessada, retraída ou incorporada ao tecido conjuntivo do trombo organizado; incompetente.

Diagnósticos diferenciais

  • Coágulo post mortem

    Por que confunde:
    Também ocupa a luz vascular e é encontrado em necropsia.
    Compartilham:
    massa intraluminal; fibrina; hemácias
    Discriminador:
    Ausência de adesão à parede, ausência de linhas de Zahn e sedimentação em duas camadas por gravidade. Consistência elástica, "em molde do vaso".
    Armadilha de amostragem:
    Um único corte pode não incluir o ponto de adesão; cortes adicionais são necessários antes de afirmar que não há aderência.
  • Êmbolo tumoral intravascular

    Por que confunde:
    Material sólido ocluindo a luz, frequentemente com fibrina associada.
    Compartilham:
    oclusão luminal; fibrina de superfície
    Discriminador:
    Presença de células epiteliais ou mesenquimais atípicas coesas dentro da massa.
    Exame que resolve:
    Painel imuno-histoquímico de citoqueratinas e marcadores de linhagem.
  • Vasculite com trombose secundária

    Por que confunde:
    Trombo presente e evidente; a causa na parede passa despercebida.
    Compartilham:
    trombo aderido; infiltrado inflamatório
    Discriminador:
    Infiltrado inflamatório transmural com necrose fibrinoide na parede, e não apenas na interface com o trombo.
    Exame que resolve:
    Elástica de van Gieson para avaliar destruição da lâmina elástica; sorologias.
  • Endocardite trombótica não bacteriana

    Por que confunde:
    Vegetações de fibrina e plaquetas, morfologicamente semelhantes ao trombo.
    Compartilham:
    fibrina; plaquetas; ausência de bactérias
    Discriminador:
    Localização valvar cardíaca, aderência ao folheto sem destruição valvar e ausência de infiltrado inflamatório significativo.

Complicações e prognóstico

  • Tromboembolismo pulmonarFragmentação e desprendimento do trombo, com migração pelo sistema venoso até impactar na circulação arterial pulmonar.
  • Síndrome pós-trombóticaOrganização destrói as válvulas venosas; o refluxo resultante mantém hipertensão venosa crônica na microcirculação cutânea.
  • Infarto hemorrágico de território drenadoOclusão venosa com aporte arterial mantido eleva a pressão capilar até a ruptura, inundando o interstício de sangue.
  • Trombose sépticaColonização bacteriana do trombo, que se torna reservatório protegido e fonte de bacteremia persistente.

Armadilhas

  • Concluir por coágulo post mortem sem ter procurado adesão em mais de um plano de corte.
  • Datar um trombo com precisão de horas — a morfologia dá faixas, não relógios.
  • Ignorar a parede do vaso: vasculite e neoplasia são causas que só aparecem se forem procuradas.
  • Assumir trombose arterial por analogia quando a parede examinada é claramente venosa.
  • Interpretar fendas de retração do processamento como recanalização, sem confirmar endotélio.

Resumo de alta retenção

  • Tríade de Virchow: lesão endotelial, alteração do fluxo, hipercoagulabilidade. Na veia, a estase domina.
  • Linhas de Zahn = formação sob fluxo = trombo intravital. Coágulo post mortem não as tem e não adere.
  • Datação morfológica: fibrina fresca → tecido de granulação → conjuntivo com canais recanalizados.
  • Oclusão venosa com aporte arterial mantido produz infarto hemorrágico, não infarto branco.
  • A sequela crônica não é o trombo, é a válvula destruída pela organização.

Autoavaliação

Responda antes de conferir. A devolutiva explica também por que as erradas estão erradas.

  1. 1.Numa necropsia, encontra-se massa ocupando a luz de uma veia femoral, aderida à íntima em dois pontos, com faixas claras e escuras alternadas. Qual a interpretação?
  2. 2.Por que a oclusão venosa produz infarto hemorrágico enquanto a oclusão arterial em órgão sólido produz infarto branco?
  3. 3.Um trombo em veia mesentérica mostra tecido conjuntivo denso permeado por canais revestidos por células CD31 positivas. O que isso permite afirmar sobre o tempo de evolução e sobre o risco embólico atual?

Referências, créditos e proveniência

Referências bibliográficas

  1. Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Pathologic Basis of Disease. 10ª ed. Elsevier; 2021. Capítulo de distúrbios hemodinâmicos, tromboembolismo e choque.
  2. Mackman N, Bergmeier W, Stouffer GA, Weitz JI. Therapeutic strategies for thrombosis: new targets and approaches. Nat Rev Drug Discov. 2020;19(5):333-352.

Crédito das fontes

  • Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp Atlas de Anatomia Patológica da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp; consulte os créditos da página original. https://anatpat.unicamp.br/
Registro completo de direitos e alterações editoriais