Em revisão médica Não neoplásica

Esteatose hepática

Também chamada de fígado gorduroso; degeneração gordurosa do fígado; esteatose macrogoticular · em inglês: hepatic steatosis; fatty liver; macrovesicular steatosis

Hepatobiliopancreático · Fígado

Sequência molecular e celular, exames complementares e diferenciais.

Objetivos de aprendizagem

  • Explicar os quatro pontos do metabolismo hepático de triglicerídeos em que a esteatose pode nascer.
  • Diferenciar esteatose macro e microgoticular pela morfologia e pelo significado clínico.
  • Reconhecer os achados que convertem esteatose simples em esteato-hepatite.
  • Justificar por que a fibrose inicial é perissinusoidal e o que isso significa funcionalmente.

Definição

Acúmulo de triglicerídeos no citoplasma do hepatócito acima do normal, visível ao microscópio óptico como vacúolos, decorrente de desequilíbrio entre entrada, síntese, oxidação e exportação de lipídeos.

Antes de olhar a lâmina: a histologia normal

Uma alteração só é alteração em relação a alguma coisa. Estabeleça a referência primeiro.

  • Fígado normal — lóbulo e placa hepatocitária

    Cordões de hepatócitos de uma a duas células de espessura, irradiando da veia central para os espaços-porta; citoplasma eosinofílico granular e homogêneo; núcleo central e redondo; sinusoides estreitos e regulares. Nenhum vacúolo. Guardar a homogeneidade do citoplasma é o que torna o vacúolo evidente depois.

  • Fígado normal — espaço-porta e zonação

    A tríade portal (ramo da porta, ramo da artéria hepática e ducto biliar) e a distância até a veia centrolobular. A zona 3, mais próxima da veia central, é a de menor tensão de oxigênio — e é por isso que a esteatose começa lá.

Etiologia e fatores de risco

  • Álcool

    toxica

    A oxidação do etanol consome NAD+ e eleva a razão NADH/NAD+. Isso inibe a β-oxidação de ácidos graxos e favorece a síntese de triglicerídeos — o hepatócito passa a queimar etanol em vez de gordura.

  • Resistência à insulina e síndrome metabólica

    metabolica

    A lipólise periférica descontrolada aumenta a chegada de ácidos graxos livres ao fígado, enquanto a hiperinsulinemia estimula a lipogênese de novo. Entrada aumentada e síntese aumentada ao mesmo tempo.

  • Fármacos (amiodarona, tamoxifeno, corticoides, valproato, tetraciclina)

    iatrogenica

    Interferem na β-oxidação mitocondrial ou na montagem de VLDL. O valproato e a tetraciclina produzem caracteristicamente o padrão microgoticular, mais grave.

  • Desnutrição proteica e nutrição parenteral prolongada

    metabolica

    Falta de apolipoproteínas trava a exportação de triglicerídeos como VLDL; a gordura fica retida por não ter transporte.

Fatores de risco

  • Obesidade central e diabetes tipo 2estabelecidoTecido adiposo visceral resistente à insulina libera ácidos graxos livres continuamente para a veia porta, e o fígado é o primeiro órgão a recebê-los.
  • Consumo crônico de álcoolestabelecidoEfeito direto sobre o estado redox hepatocitário e sobre a expressão de fatores de transcrição lipogênicos.
  • Perda ponderal muito rápidaprovávelMobiliza grandes quantidades de ácidos graxos do tecido adiposo em curto intervalo, sobrecarregando temporariamente a capacidade hepática de oxidação e exportação.

Do gatilho à manifestação clínica

Cada seta responde a uma pergunta: por que o próximo evento acontece?

Mecanismo patológico geral

O conceito reutilizável primeiro, a aplicação a esta doença depois. Separar os dois é o que permite reconhecer o mesmo mecanismo em outro órgão.

  • Acúmulo intracelular

    A célula passa a conter mais de alguma substância do que consegue metabolizar ou exportar. Isso acontece por três caminhos: a oferta aumenta, a via de processamento falha, ou a via de exportação trava. O acúmulo em si costuma ser reversível; ele importa porque desloca organelas, distorce a arquitetura e sinaliza qual etapa metabólica quebrou.

    Nesta doença: O hepatócito acumula triglicerídeos quando qualquer um de quatro pontos falha: entrada aumentada de ácidos graxos livres, lipogênese de novo aumentada, β-oxidação reduzida, ou exportação de VLDL travada. Cada etiologia ataca um ponto diferente — e é por isso que a mesma morfologia serve a causas tão distintas.

  • Adaptação celular

    Diante de uma demanda persistente que ainda não excede a capacidade da célula, o tecido muda de tamanho, de número ou de fenótipo para operar num novo estado estável. A adaptação é reversível por definição: retirado o estímulo, o tecido tende a voltar. Seu preço é trocar uma função especializada por resistência — e é justamente essa troca que cria terreno para lesões posteriores.

    Nesta doença: Enquanto há apenas gordura, o hepatócito continua funcional e o processo é reversível: suspenso o estímulo, os triglicerídeos são mobilizados em semanas. A esteatose simples é adaptação, não lesão — e tratá-la como doença estabelecida distorce o prognóstico.

  • Reparo e fibrose

    Quando o parênquima perdido não pode ser reposto — porque as células não se dividem, porque a matriz de suporte foi destruída, ou porque a agressão persiste — o tecido é substituído por colágeno. O reparo restaura a continuidade, não a função. Fibrose é reparo que não sabe parar, e o custo é rigidez, retração e distorção arquitetural permanente.

    Nesta doença: Quando a lipotoxicidade e o estresse oxidativo se somam à gordura, células estreladas perissinusoidais se ativam e depositam colágeno no espaço de Disse. A fibrose começa exatamente onde ocorre a troca metabólica, em padrão "em tela de galinheiro" ao redor de hepatócitos individuais — não nos espaços-porta.

Cadeia causal específica

  1. Gatilho / etiologia

    Oferta de ácidos graxos livres acima da capacidade de processamento

    Seja pela lipólise periférica descontrolada da resistência insulínica, seja pelo desvio metabólico imposto pelo etanol, o hepatócito recebe mais substrato lipídico do que pode oxidar ou exportar.

  2. Alvo molecular ou celular

    Mitocôndria e via de montagem da VLDL no retículo endoplasmático

    A β-oxidação mitocondrial é a saída oxidativa; a montagem de VLDL é a saída exportadora. Bloquear qualquer uma delas transforma o excedente em triglicerídeo estocado.

  3. Resposta celular

    Esterificação e formação de gotículas lipídicas

    Ácido graxo livre é detergente e tóxico para membranas. Esterificá-lo em triglicerídeo e guardá-lo numa gotícula é, paradoxalmente, um mecanismo de proteção — a célula neutraliza o que não consegue eliminar.

    Na lâmina: Vacúolos citoplasmáticos que coalescem e deslocam o núcleo para a periferia

  4. Resposta tecidual

    Estresse oxidativo, lipotoxicidade e recrutamento inflamatório

    Metabólitos lipídicos intermediários — não o triglicerídeo em si — geram espécies reativas de oxigênio, estresse do retículo e ativação de células de Kupffer. Aí a adaptação vira lesão: o hepatócito baliçoniza e o lóbulo recebe infiltrado inflamatório misto.

    Na lâmina: Balonização hepatocitária, corpúsculos de Mallory-Denk e inflamação lobular

  5. Achado morfológico

    Fibrose perissinusoidal progressiva

    Células estreladas ativadas por citocinas e por produtos da peroxidação lipídica depositam colágeno no espaço de Disse. O sinusoide, antes um canal fenestrado e permeável, ganha uma parede.

    Na lâmina: Colágeno em "tela de galinheiro" ao redor de hepatócitos isolados na zona 3

  6. Perda ou alteração de função

    Capilarização do sinusoide e perda de troca metabólica

    O endotélio sinusoidal perde as fenestras e ganha membrana basal. A troca bidirecional entre sangue e hepatócito — razão de ser da arquitetura hepática — é comprometida antes de qualquer alteração de enzima sérica.

  7. Manifestação clínica

    Hepatomegalia e alteração de aminotransferases

    O volume acumulado aumenta o tamanho do órgão; a lesão de membrana em hepatócitos balonizados libera ALT e AST. A esteatose simples costuma ser silenciosa — o achado inicial é frequentemente incidental em ultrassonografia.

  8. Complicação

    Cirrose e carcinoma hepatocelular

    A fibrose perissinusoidal se estende, forma pontes entre estruturas vasculares e delimita nódulos regenerativos. A regeneração contínua num ambiente de estresse oxidativo aumenta a probabilidade de eventos mutacionais, o que sustenta o risco neoplásico.

Macroscopia

  • Fígado aumentado, amarelado, de borda romba e consistência amolecida

    Sugestivo
    Por que aparece:
    Acúmulo difuso de triglicerídeos no citoplasma dos hepatócitos.
    O que significa:
    Sugere esteatose extensa; a cor e a consistência não distinguem esteatose simples de esteato-hepatite.
  • Superfície de corte que unta a lâmina de vidro

    Frequente
    Por que aparece:
    Alta concentração de lipídeo livre no tecido.
    O que significa:
    Sinal clássico de necropsia; não quantifica nem gradua.

No microscópio, na ordem certa

Panorâmica → arquitetura → compartimento → padrão celular → citologia → síntese.

Procure primeiro: Antes de olhar qualquer hepatócito, avalie a distribuição: a gordura é difusa ou tem preferência por uma zona do lóbulo? Localize as veias centrais e os espaços-porta.

  • Predomínio da vacuolização na zona 3 (centrolobular)

    Sugestivo
    Por que aparece:
    Menor tensão de oxigênio e maior atividade do citocromo P450 2E1 nessa região.
    O que significa:
    A zonação é a primeira pista etiológica: padrão centrolobular sugere álcool ou doença hepática metabólica no adulto.
  • Arquitetura lobular preservada, sem nódulos

    Necessário
    Por que aparece:
    Ausência de remodelamento fibrótico completo.
    O que significa:
    Afasta cirrose estabelecida; a doença ainda é potencialmente reversível.

Síntese diagnóstica

Esteatose isolada, com arquitetura preservada e sem balonização nem inflamação lobular, é adaptação reversível. O diagnóstico muda de natureza quando aparecem os três componentes da esteato-hepatite — esteatose, balonização e inflamação lobular — e a gravidade passa a ser determinada pela fibrose, que precisa ser estadiada com tricrômico. A morfologia, porém, não distingue causa alcoólica de metabólica: as duas produzem o mesmo quadro, e a diferenciação é clínica.

Lâminas de referência

Catalogadas nos atlas de origem. Seleção editorial primeiro; o inventário completo de cada entrada fica a um clique.

Demais referências catalogadas (20)

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  • MacroscopiaHE Direitos aprovados

    Esteatose macrovesicular e microvesicular com lipogranuloma hepático

    macrovesicular and microvesicular steatosis, lipogranuloma, liverDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Histopathology Atlas / patolojiAI · exibição remota no Domine Aqui

  • Macroscopia Direitos aprovados

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

  • Macroscopia Direitos aprovados

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

  • Macroscopia Direitos aprovados

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Macroscopia Direitos aprovados

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

  • Macroscopia Direitos aprovados

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Macroscopia Direitos aprovados

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

  • Macroscopia Direitos aprovados

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Macroscopia Direitos aprovados

    Cirrose irregular e cirrose macronodular (duas peças)

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  • Histologia Direitos aprovados

    Varizes do esôfago

    Varizes do esôfagoDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Histologia Direitos aprovados

    Varizes do esôfago

    Varizes do esôfagoDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Histologia Direitos aprovados

    Varizes do esôfago

    Varizes do esôfagoDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

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  • Histologia Direitos aprovados

    Varizes do esôfago

    Varizes do esôfagoDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

  • Histologia Direitos aprovados

    Varizes do esôfago

    Varizes do esôfagoDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

  • Histologia Direitos aprovados

    Varizes do esôfago

    Varizes do esôfagoDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

  • Histologia Direitos aprovados

    Varizes do esôfago

    Varizes do esôfagoDescrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

  • Macroscopia Direitos aprovados

    Esteatose macrogoticular

    Esteatose hepática Lam. A. 48Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

  • Macroscopia Direitos aprovados

    Esteatose macrogoticular

    Esteatose hepática Lam. A. 48Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

  • Macroscopia Direitos aprovados

    Esteatose macrogoticular

    Esteatose hepática Lam. A. 48Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

  • Macroscopia Direitos aprovados

    Esteatose macrogoticular

    Esteatose hepática Lam. A. 48Descrição capturada da página de origem, sem revisão médica do Domine Aqui.

    Crédito: Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp · exibição remota no Domine Aqui

Colorações, imuno-histoquímica e molecular

Cada exame responde a uma pergunta. Resultado isolado não é diagnóstico.

  • Tricrômico de Masson

    Responde:
    Já existe fibrose e em que compartimento ela está?
    Padrão esperado:
    Colágeno em azul. Na doença hepática gordurosa, o padrão inicial é perissinusoidal na zona 3, em "tela de galinheiro", ao redor de hepatócitos individuais — não portal.
    Controles:
    Controle com fibrose conhecida; o excesso de coloração superestima o estágio.
    Limitações:
    • Fibrose fina pode ser subestimada em fragmentos pequenos ou fragmentados de biópsia.
    • Não distingue fibrose ativa de cicatriz antiga estabilizada.
    Muda o diferencial:
    O compartimento da fibrose orienta a etiologia: perissinusoidal aponta para doença gordurosa; portal com interface hepatítica aponta para hepatite crônica viral ou autoimune.
  • Oil Red O / Sudan em corte de congelação

    Responde:
    O conteúdo dos vacúolos é realmente lipídeo?
    Padrão esperado:
    Gotículas coradas em vermelho-alaranjado no citoplasma.
    Controles:
    Exige tecido não processado em parafina; controle positivo de tecido adiposo.
    Limitações:
    • Impossível em material já incluído em parafina — a decisão precisa ser tomada na macroscopia.
    • Não diferencia triglicerídeo de outros lipídeos neutros.
    Muda o diferencial:
    Resolve a confusão entre esteatose e outros vacúolos citoplasmáticos, como o glicogênio da doença de depósito ou o vacúolo hidrópico da lesão isquêmica.
  • PAS com e sem digestão por diástase

    Responde:
    O vacúolo contém glicogênio, ou há glóbulos de alfa-1-antitripsina?
    Padrão esperado:
    Glicogênio: PAS positivo que desaparece após a diástase. Alfa-1-antitripsina: glóbulos PAS positivos e diástase-resistentes, periportais.
    Controles:
    Lâmina pareada com e sem digestão, obrigatoriamente.
    Limitações:
    • Glicogênio se perde com fixação prolongada, produzindo falso-negativo.
    • Glóbulos podem ser escassos em heterozigotos.
    Muda o diferencial:
    Separa esteatose de glicogenose e de deficiência de alfa-1-antitripsina, duas entidades com conduta e aconselhamento inteiramente distintos.
  • Citoqueratina 8/18 (perda) e p62

    Responde:
    Este hepatócito aumentado está realmente balonizado?
    Padrão esperado:
    Perda da marcação citoplasmática normal de CK8/18 no hepatócito balonizado, com positividade para p62 nos corpúsculos de Mallory-Denk.
    Controles:
    Hepatócitos não balonizados do mesmo corte servem como controle interno.
    Limitações:
    • Interpretação exige avaliação comparativa e é sujeita a variabilidade entre observadores.
    • Não é necessária na rotina: a balonização é diagnóstico de HE.
    Muda o diferencial:
    Ajuda a resolver casos-limite entre esteatose simples e esteato-hepatite, distinção com implicação prognóstica direta.

Da morfologia ao sintoma

Correlação entre achado morfológico, consequência funcional e manifestação clínica
Achado morfológicoConsequência funcionalManifestação
Esteatose macrogoticular difusa sem balonizaçãoAumento de volume hepático com função sintética preservada.Hepatomegalia e esteatose à ultrassonografia, habitualmente assintomática, com enzimas normais ou discretamente elevadas.
Balonização com inflamação lobularLesão de membrana hepatocitária com extravasamento enzimático.Elevação persistente de ALT e AST; risco de progressão para fibrose.
Fibrose em ponte e nódulos regenerativosAumento da resistência intra-hepática ao fluxo portal e perda de massa funcional.Hipertensão portal, ascite, varizes esofágicas e insuficiência hepática progressiva.
Esteatose microgoticular difusaFalência aguda da β-oxidação mitocondrial com queda de produção de ATP.Insuficiência hepática aguda, hipoglicemia e encefalopatia — emergência médica.

Normal × patológico, lado a lado

Comparação entre o tecido normal e o tecido alterado, aspecto por aspecto
AspectoNormalPatológico
Citoplasma do hepatócitoEosinofílico, granular e homogêneo.Ocupado por vacúolo único e grande (macrogoticular) ou por múltiplos vacúolos pequenos (microgoticular).
Posição do núcleoCentral, redondo, com nucléolo evidente.Deslocado para a periferia e achatado contra a membrana na esteatose macrogoticular; central na microgoticular.
Espaço de DisseVirtual, sem colágeno; sinusoide fenestrado permitindo troca livre.Expandido por colágeno; sinusoide capilarizado, com perda das fenestras e da troca.
Placa hepatocitáriaUma a duas células de espessura, radial e regular.Distorcida por células volumosas e, nas fases avançadas, fragmentada por septos fibrosos.

Diagnósticos diferenciais

  • Esteato-hepatite (alcoólica ou metabólica)

    Por que confunde:
    A esteatose é o achado dominante nas duas.
    Compartilham:
    esteatose macrogoticular; distribuição centrolobular
    Discriminador:
    Balonização hepatocitária associada a inflamação lobular. Sem os dois, é esteatose simples.
    Exame que resolve:
    Tricrômico para estadiar a fibrose, que define o prognóstico.
    Armadilha de amostragem:
    Biópsia representa cerca de 1/50.000 do órgão; amostragem insuficiente subestima balonização e fibrose.
  • Glicogenose e núcleos glicogenados

    Por que confunde:
    Citoplasma vacuolizado e claro.
    Compartilham:
    citoplasma claro; hepatomegalia
    Discriminador:
    PAS positivo com digestão por diástase; o vacúolo é menos nítido e não desloca o núcleo.
    Exame que resolve:
    PAS pareado com e sem diástase.
  • Doença de depósito lisossomal (Gaucher, Niemann-Pick)

    Por que confunde:
    Células volumosas com citoplasma alterado no parênquima hepático.
    Compartilham:
    citoplasma expandido; hepatomegalia
    Discriminador:
    A célula acometida é o macrófago sinusoidal, não o hepatócito, e o citoplasma tem aspecto estriado (Gaucher) ou espumoso uniforme (Niemann-Pick).
    Exame que resolve:
    Dosagem enzimática e teste genético.
  • Hepatite crônica viral com esteatose associada

    Por que confunde:
    Esteatose acompanha com frequência a hepatite C, sobretudo genótipo 3.
    Compartilham:
    esteatose; inflamação; fibrose
    Discriminador:
    Inflamação de predomínio portal com hepatite de interface e agregados linfoides portais, e fibrose que começa portal, não perissinusoidal.
    Exame que resolve:
    Sorologia e carga viral.

Complicações e prognóstico

  • CirroseFibrose perissinusoidal progride para septos e pontes, delimitando nódulos regenerativos e alterando definitivamente a hemodinâmica hepática.
  • Carcinoma hepatocelularCiclos repetidos de lesão e regeneração em ambiente de estresse oxidativo aumentam a chance de fixação de mutações em clones proliferantes; pode ocorrer mesmo sem cirrose estabelecida na doença metabólica.
  • Insuficiência hepática aguda na esteatose microgoticularColapso da β-oxidação mitocondrial com queda abrupta de ATP e falência simultânea de múltiplas funções hepatocitárias.

Armadilhas

  • Chamar de esteato-hepatite qualquer esteatose com algum linfócito no lóbulo, sem balonização.
  • Atribuir corpúsculos de Mallory-Denk exclusivamente ao álcool.
  • Confundir balonização com hepatócito grande de citoplasma claro por glicogênio.
  • Estadiar fibrose em fragmento de biópsia curto ou fragmentado, subestimando o estágio.
  • Pedir Oil Red O depois de o material já ter ido para a parafina — a decisão é na macroscopia.

Resumo de alta retenção

  • Quatro pontos de falha: entrada aumentada, lipogênese aumentada, β-oxidação reduzida, exportação de VLDL travada.
  • Macrogoticular: vacúolo único, núcleo periférico, mais benigna. Microgoticular: múltiplos vacúolos, núcleo central, sinal de falência mitocondrial aguda.
  • Esteatose simples ≠ esteato-hepatite: a diferença é balonização + inflamação lobular.
  • A fibrose da doença gordurosa começa perissinusoidal na zona 3, não portal.
  • O vacúolo é vazio na parafina porque a gordura foi dissolvida — confirmar exige congelação.

Autoavaliação

Responda antes de conferir. A devolutiva explica também por que as erradas estão erradas.

  1. 1.Biópsia hepática mostra 40% dos hepatócitos com vacúolo único e grande, predomínio centrolobular, sem balonização, sem inflamação lobular e com tricrômico sem fibrose. Qual o diagnóstico e o significado prognóstico?
  2. 2.Por que a fibrose da doença hepática gordurosa começa no espaço perissinusoidal da zona 3 e não nos espaços-porta?
  3. 3.Gestante no terceiro trimestre desenvolve icterícia, hipoglicemia e encefalopatia. A biópsia mostra hepatócitos com múltiplos vacúolos pequenos e núcleos centrais, sem necrose extensa. Como interpretar a morfologia?

Referências, créditos e proveniência

Referências bibliográficas

  1. Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Pathologic Basis of Disease. 10ª ed. Elsevier; 2021. Capítulo de fígado e vias biliares.
  2. Burt AD, Ferrell LD, Hübscher SG. MacSween’s Pathology of the Liver. 8ª ed. Elsevier; 2023.
  3. Rinella ME, et al. A multisociety Delphi consensus statement on new fatty liver disease nomenclature. Hepatology. 2023;78(6):1966-1986.

Entradas catalogadas consolidadas nesta doença

O nome exato encontrado na fonte é preservado. A consolidação é trabalho editorial do Domine Aqui e não é atribuída às instituições de origem.

Crédito das fontes

  • Atlas de Anatomia Patológica — FCM/Unicamp Atlas de Anatomia Patológica da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp; consulte os créditos da página original. https://anatpat.unicamp.br/
  • Histopathology Atlas / patolojiAI Histopathology Atlas / patolojiAI — Serdar Balcı, Memorial Pathology e instituições colaboradoras, conforme a página original. https://www.histopathologyatlas.com/
Registro completo de direitos e alterações editoriais